Covid-19

Pelotas atinge marca de 500 vidas perdidas

Só em março, 121 pessoas morreram por complicações do coronavírus

Jô Folha -

Os números são desoladores. Pelotas atingiu a triste marca de 500 vidas perdidas para a Covid-19. Somente nos 31 dias do mês de março, 121 pessoas foram vitimadas pelas complicações do coronavírus. O município chegou a esses números devido aos três óbitos registrados nesta quarta-feira (31): duas mulheres, de 58 e 85 anos, e um homem de 43 anos.

Quem sentiu na pele a dor que essas três famílias estão sentindo hoje foi Daniela Campos, 51. Há três semanas ela perdeu a mãe, Maria Luiza de Almeida Campos, que havia completado 81 anos no dia 15 de janeiro. “Como a gente se infectou, eu não sei. Essa é a pergunta que eu me faço, porque eu não sei. A mãe e eu estávamos em casa cumprindo quarentena. Só saia para coisas que precisavam ser feitas, dentista, farmácia, supermercado, banco, algum pagamento, só o essencial mesmo. Eu não estava saindo para passear, para ir a lugar nenhum, não estava recebendo visitas, não estava frequentando a casa de ninguém. Eu realmente não sei como o vírus chegou até nós, pode ter sido em um Uber, em uma embalagem de supermercado, na sola de um sapato, eu não sei”, conta Daniela.

A mãe apresentou os primeiros sintomas no dia 24 de fevereiro, com um quadro de dor de cabeça. Mas como era leve, a princípio poderia ser referente a uma infecção urinária que já estava se tornando crônica. A suspeita de Covid ficou mais forte três dias depois, quando Daniela começou a sentir dor de garganta. “Como a dor era muito forte eu fiquei muito preocupada e fui logo testar, deu positivo e eu fiquei apavorada. Naquele mesmo dia eu peguei ela e levei para o Pronto Atendimento do Saúde Maior”.

Como Maria Luiza não apresentava nenhum sintoma mais forte, ambas realizaram exame laboratorial de Covid e foram liberadas. Mas de uma hora para outra a oxigenação no pulmão caiu e ela precisou ser encaminhada ao hospital no dia 3 de março, mesmo dia que saiu a confirmação da infecção pelo novo coronavírus. Mesmo sem dor e sem febre, a tomografia acusou um comprometimento de 50% no pulmão da mãe. Não demorou muito e ela já foi para a lista de espera por um leito de UTI. “Na quinta-feira (dia 4) pela manhã ela foi transferida para a UTI, consciente, falando. E essa foi a última vez que eu a vi.”

“Isso reforça o quanto essa doença é traiçoeira, como ela é totalmente desconhecida da gente. Sem se expor a gente pega, imagina se expondo”, diz ela. E completa: “Infelizmente as pessoas ainda não se conscientizaram. Talvez só se conscientizem quando forem receber aquele ser querido teu dentro de um caixão lacrado, tem muitas pessoas que infelizmente a ficha não cai”.

Distanciamento social
Infelizmente não há, no momento, nenhum indicativo de que a pandemia esteja perto do fim no Brasil. Na terça-feira, o país foi responsável por mais de 30% das mortes pela doença no mundo inteiro. “A doença está totalmente descontrolada no Brasil e está se fazendo muito pouco para poder fazer um combate e diminuir esse nível de infecção. O governo não toma nenhuma medida mais restritiva, então não tem saída. As pessoas vão continuar morrendo, os hospitais vão continuar lotados. A situação é uma catástrofe. O Brasil tem o maior número de casos, o maior número de mortes”, diz o médico epidemiologista Fernando Celso Barros.

Professor e um dos pesquisadores da Epicovid-19 da Universidade Federal de Pelotas, Barros reitera que a única forma de minimizar o contágio no país é praticando o isolamento social. “Esse momento agora, com hospitais lotados e com 500 mortes em Pelotas, eu acho que nós temos que fazer o máximo de distanciamento possível. Como o governo municipal vai encaminhar isso eu realmente não sei, agora do ponto de vista individual a minha sugestão, e acho que essa é a de qualquer pessoa que olhe os números, é que nós precisamos fazer muito distanciamento social. Todos os países que tem essa taxa de reprodução que nós estamos apresentando agora estão fazendo o máximo de distanciamento, não tem outra forma. Nós vacinas muito pouco, o efeito da vacina vai se dar daqui a dois meses. Não há nenhuma possibilidade de que a vacina, aqui no Brasil, vá modificar a cara da pandemia em 2021. A única coisa que pode modificar é o distanciamento social. Ou a gente se afasta e diminui a infecção ou a gente vai ficar mantendo esse nível de infecção e as pessoas morrendo”, finaliza.

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